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Argila ou massinha: quais as diferenças e as potências desses materiais?

  • Foto do escritor: Marcela Chanan
    Marcela Chanan
  • há 2 dias
  • 10 min de leitura

Por Marcela Chanan


Trabalho com argila e massinha há 20 anos, mas foi com o passar do tempo, dos estudos e das experimentações que comecei a desenvolver um olhar de pesquisa. No meu percurso foi comum encontrar massinha como material escolar no cotidiano dos espaços educativos, mas sem uma intencionalidade clara. Já a argila esteve presente em projetos interdisciplinares ou propostas específicas ligadas a linguagem da arte na Educação Infantil e Séries Iniciais do FI.


Guardo os registros dessas experiências desde 2010, alguns partilhados em seminários, congressos ou mesmo aparecendo no blog, mas publicizado como um percurso só tenho o relato "Que tal argila?" lá no blog antigo, vivido em 2011 focado mais no ensino de técnicas - o que era apropriado para época, faz anos que não trabalho com essa concepção. Saiba mais nesse texto A arte como expressão, criação e investigação singular da criança . Os registros abaixo são de 2012, 2013 e 2014 com crianças de 5 a 8 anos.

A breve reflexão que trago aqui partiu de alguns questionamentos no retorno da pandemia, em 2021, na prática com crianças entre 3 e 4 anos, teve duração de um semestre e me despertou o olhar para as possibilidades do trabalho com os dois materiais:


afinal, quais as diferenças e as potências da massinha e da argila?


Nos anos de 2022 e 2023 tive novas vivências com bebês e depois percebi uma movimentação maior nas redes sociais de registros onde docentes e escolas compartilhavam projetos e vivências com a argila, logo o material se popularizou (o que é maravilhoso!), mas ainda há uma grande lacuna na formação docente. Já escutei de muitas professoras, que desistiram de trabalhar com a argila, por não conseguirem fazer nada com os bebês e/ou as crianças.


De fato, é preciso formação/experiência pessoal para ter conhecimento suficiente e colaborar com os processos infantis, realizar as escolhas de materiais para compor as propostas e fazer intervenções que enriquecem a aprendizagem infantil, não adianta copiar da internet, na fotografia pode até parecer igual, mas o que conta mesmo é a qualidade da experiência. Portanto, como ofertar uma material que nunca se teve contato ou não se sabe como manusear e nem se conhece suas possibilidades?


Minhas primeiras experiências com a argila acredito que foram por volta de 2007 em uma oficina de arte formativa, mas fui criança da terra, do barro, já tinha essa conexão dentro de mim. Então, desde que me tornei professora e tive contato com argila, todo ano crio propostas com os bebês e as crianças das quais trabalho, ampliando meus saberes e pesquisando a prática pedagógica. Tenho dois textos para publicar aqui no blog sobre esse assunto, vivências com bebês e outro que contempla argila com crianças pequenas.


A matéria e sua composição


Comecei pesquisando sobre a matéria, você já se perguntou do que é feita a massinha? Qual é a sua história? De onde veio? Se a argila e o barro são a mesma coisa ou sobre as suas qualidades e propriedades?


Massas e massinhas


Pesquisando no google, descobri que a massinha era um produto de limpeza que foi reinventado como brinquedo infantil: vista como segura (atóxica), limpa (não suja, não mancha, visão higienista), ganhou várias cores e logo se tornou um sucesso mundial.


A questão de ser reutilizável é relativa, tem tempo definido de validade, essas massinhas endurecem, racham, esfarelam e algumas mofam. Outro aspecto é que o experimento das crianças é misturar as cores quando ofertado aquele estojo/balde com várias cores e o problema é que depois não querem mais brincar com a mistura de cor que se formou quando vira uma massa acinzentada, esverdeada ou marrom.


Com as massinhas industrializadas em potes de 500g com uma cor por pote, tive experiências melhores, é possível criar estratégias de utilização para não misturar e usar várias vezes garantindo o fechamento do pote sem entrada de ar, como por exemplo, cada criança ter sua cor. Há marcas melhores que outras em sua composição, por exemplo, algumas tem um cheiro característico, uma textura mais fofa ou mais dura, a bases de seus ingredientes pode ter amido (cuidado com alérgicos) ou cera, e mesmo atóxico não deve ser engolido.



Existem outras massas também como uma marca a base de argila de polímero indicada para adultos, a cerâmica fria (acima de 3 anos), a massa de biscuit (não é seguro para ser utilizado com a primeira infância, mesmo sendo atóxico, não pode ser ingerido, indicado para crianças acima de 5 anos com acompanhamento individualizado do adulto), a massa de eva (massa de plástico), a geleca (PVA, microplástico) e mesmo os slimes (as receitas caseiras no geral, dependendo da composição não são ecológicas, pois detergente e cola são poluentes); a areia cinética...A maior parte desses materiais não são biodegradáveis e todos têm algum impacto ambiental, além da ingestão e alergia, portanto devemos evitar e deixar para o contexto familiar recreativo. Ao meu ver não cabe no contexto educativo.


As escolas acabam entrando na moda sem se quer refletir sobre o que acreditam. E ainda tem quem use o glitter, são muitas questões... Não vou ser hipócrita e dizer que nunca fiz, porque já fiz slime com polvilho doce, água e urucum, dentro de um contexto de experimentação com materiais e pigmentos naturais, porém ficou bem pegajoso, foi difícil tirar das mãos, nunca mais fiz, também porque não consegui ver um propósito.


A massinha caseira natural ou orgânica é uma boa opção, há receitas com trigo/amido/ farinha de arroz, óleo, sal, água e corantes (não faço com tinta guache, prefiro anilina comestível com as crianças e com os bebês acima de 1 ano uso corantes naturais como beterraba, açafrão e urucum), há versões cozidas que duram mais armazenando na geladeira, outras em que adiciona-se um ingrediente para não mofar e para dar cheiro pode-se fazer com ervas ou essência, mas tudo sempre precisa verificar a possibilidade de alergia, solicite os materiais e faça na escola com a ciência da gestão, não leve de casa pronto, se der alguma reação na criança a responsabilidade cairá sobre você.


Se na receita vai outros materiais como condicionador, por exemplo, para mim já não é natural, enfim, tem mil possibilidades na internet, o que resta saber é: qual a intencionalidade pedagógica? É um material de fato sustentável? Há durabilidade ou desperdício? Tem quanto tempo de uso para depois ser jogado tudo no lixo? É um material para ser trabalhado no espaço educativo ou familiar?


Uma ótima opção para brincar com massas é fazer culinária: pão, biscoito, bolacha, bolo, cookie e depois comer a produção! Ainda dá pra fazer colorido com beterraba, cenoura, mandioquinha, etc.


Argila é barro?


Pesquisando sobre as diferenças entre o barro e a argila encontrei muita coisa, são quase que sinônimos e é difícil ter uma resposta única, nessa minha pesquisa chego a conclusão que para alguns é a mesma coisa, embora tenha suas diferenças e para outros não. E escolhi escutar as guardiãs dessa arte transmitida de geração em geração: as artesãs e as mulheres de alguns povos indígenas que preservam essa cultura ancestral.


Pelo que entendi, o barro é o material bruto, encontrado na superfície, porém nem toda terra faz barro, ou seja, nem todo solo é argiloso, existe os que tem mais areia, mais material orgânico, mais calcário e misturas desses tipos de solo. Depois de identificado, o barro é coletado e como está na superfície está misturado com raízes, pedrinhas, folhas, areia, restos orgânicos, etc; e para se tornar argila passa por um processo com várias etapas, essa preparação envolve socar, peneirar e tirar as impurezas para depois acrescentar água e amassar.


Minhas mãos preparando a argila para as crianças
Minhas mãos preparando a argila para as crianças

Para diferentes usos (medicinal, cosmético, artístico, construção etc) tem diferentes processos, depende da origem e da composição do material coletado. É possível encontrar a argila in natura, porém ela está mais submersa no solo e também passa por um processo de purificação. E não é tão simples quanto parece, é preciso fazer experimentações, testes para ter certeza que a argila ficou boa, assim como os pigmentos. Suas cores variam com conforme sua composição e região onde foi encontrada.


A argila é porosa, úmida, maleável, pesada, resistente pode ter diferentes texturas e estados se transformando até em tinta e a famosa barbotina para emenda de partes. Quando ofertada as crianças, pode incluir o uso de água, não precisa estar focada no fazer apenas com as mãos, mas permitir que o corpo todo se expresse, que para além de produzirem algo, explorem, investiguem e brinquem. O material é uma linguagem.


Quando secas, as crianças vão percebendo que ela guarda histórias e memórias, além de tornar visível um pensamento ou um sentimento. Também é possível relacionar para além das linguagens da arte com as ciências, a arqueologia, etc. Com bebês e crianças bem pequenas costumo ofertar a argila e depois guardar novamente, já com os maiores que criam formas e representam suas ideias, deixo secar e depois de expostas pela escola levam para casa. E se secar e quiser reutilizar é só colocar num recipiente com água que é possível reutilizar toda argila que endureceu, pois ela amolece.


O material: massinha e argila


Imagem: Tonucci
Imagem: Tonucci

A massinha é um material artificial, além de ser sempre oferecida às crianças para ocupá-las, distraí-las, acalmá-las; promovendo um brincar limitado e até estereotipado em suas criações, além de controlado, principalmente, em sua quantidade e até a cor; dessa forma não oferece uma experiência significativa de aprendizagem. Pode ter outras formas de ser oferecida? Sim! Esse material é indispensável? Não. Tem a ver com a intencionalidade docente e suas concepções.


Entre a massinha e a argila há algo que interessa muito as crianças a questão da manipulação de um material com plasticidade que conforme as ações das mãos, se transforma no que quiser.


Os materiais ofertados junto com a massinha são forminhas/kits/moldes/conjuntos/ferramentas produzidos para este fim com inspiração nos materiais de cozinha e de cerâmica. Nas explorações com a argila as ferramentas são esponja, esteca, espátula, pincel, rolo e outros, além de um fio ou arame para corte, materiais para texturas (inclusive naturais) e até torno. Nos dois casos é possível usar palitos e objetos de cozinha (gosto de usar os brinquedos infantis com a massinha e os objetos reais com a argila, vale testar e tirar suas próprias conclusões). A superfície onde será colocada a argila precisa lidar bem com sua umidade e porosidade, já coloquei direto na mesa, cobri com jornal ou outro papel e não deu certo, apenas com tábuas pequenas, discos de mdf e tecido cru obtive sucesso.


As diferenças entre os materiais fazem com que cada um seja mais adequado para o uso a depender da intenção. A argila por exemplo é muito melhor para esculturas tridimensionais e pode ser ofertada em formatos e quantidades diferentes. A branca é possível pigmentar, faça seus testes!


Frequentemente quando trabalhamos com as linguagens da arte, recorremos a obras e pesquisas de artistas para abrir diálogos e nutrir nosso olhar de possibilidades, nesse caso, a argila oferece um grande leque de possibilidades, pois é um material natural, ancestral, cheio de história dentro de diversas culturas e de processos artísticos. Já a massinha, tenho apenas a referência do stop-motion na construção de cenários e personagens, lembra do Pingu? E uma artista que faz obras fotografa e desmancha o trabalho, pois a massinha endurece e racha.


Uma argila de qualidade precisa ser comprada em casas de cerâmica/artesanato, não pode ser em loja de plantas (não é adequada) ou em papelaria (qualidade das argilas escolares cai muito, endurece e quebra tudo, a durabilidade é baixa e o custo mais alto) e descobri esses dias a tal massinha de argila que não experimentei. As argilas são vendidas em blocos de 10/20kg e existem diferentes cores (amarela, branca, preta, terracota, marrom, depende da sua composição), além da argila em pó e dos pigmentos. O que já entra com um diferencial da massinha, assim como a possibilidade de reciclagem e reutilização. E até confecção de riscadores, de giz de argila.


É importante considerar que as argilas em pó para quem tem a pele muito sensível pode causar irritação ou vermelhidão na pele, quem tem dermatite melhor não usar e há a possibilidade até de alergia aos minerais. E são dois tipos, as de uso cosmético bem finas (passam por filtragem, esterilização e descontaminação de metais pesados) e as de uso em ateliê com granulo maior (pode conter impurezas naturais, pedregulhos ou até aditivos químicos). Pesquise antes de usar.


A materialidade: quando a produção ganha sentido.


"A massinha foi um material com o qual brincaram bastante, principalmente de fazer comidinhas, as crianças usaram panelinhas, palitos, garfinhos e forminhas, mas também criaram famílias de bolinhas e de cobrinhas, brincaram de esconder os dedos e as mãos, chegando até a fazer esculturas. Por isso, decidi lhes apresentar a argila, um material natural e com novas possibilidades. Inicialmente, trouxe de casa uma argila terracota para cerâmica até que a Unidade comprasse outra. Vivemos um percurso curto, mas o suficiente para as crianças começarem a observar e questionar as diferenças entre massinha e argila, como a textura, a temperatura, o cheiro, a secagem e a possibilidade de levar para casa no fim do semestre. Nas experiências com a argila, coletamos materiais naturais pelo parque, como gravetos, pedras, sementes, folhas, e as crianças criavam suas composições da forma como queriam, não ensinei como modelar a argila, apenas orientei em relação a amassar bem para depois modelar. As argilas secas permaneceram na sala, apoiadas em um vão que divide a sala e o banheiro, habitando nosso espaço até o fim do semestre."

(CHANAN, 2022, pág. 57 e 58)


Nessa experiência já é possível perceber outra concepção, não ensinei as crianças a fazerem cobrinhas e bolinhas, elas mesmas por iniciativa própria modelaram dessa forma e criaram suas brincadeiras com muita imaginação, isso desde o primeiro uso da massinha.


É possível observar uma gramática de ações como amassar, apertar, furar, moldar, espremer, espalmar, socar, torcer, puxar, marcar, enrolar, dedilhar, espalmar, levantar, pendurar, juntar, separar, empilhar etc e alguns conceitos envolvidos como forma, volume, espaço (interno/externo), peso, gravidade, tridimensionalidade, transformação etc. Além de autoria, criatividade, protagonismo, pesquisa, descobertas, diversas possibilidades, expressão de ideias, sentimentos e narrativas. São muitas aprendizagens!


Agora aprecie os registros e crie conexões com o que foi compartilhado até aqui e suas experiências. Observe que as propostas foram nas mesas por conta da situação de pandemia e infelizmente não tinha tábuas ou discos de mdf para colocar na mesa e trabalhar com a argila e acabei fazendo com o que tinha, nas próximas experiências que vou compartilhar no blog terá novas possibilidades.


Na imagem abaixo tem uma seta do lado direito para conferir outras imagens.


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