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O adulto de referência no trabalho com a educação infantil - 0 a 3.

Por Marcela Chanan


Desde que iniciei meus estudos sobre educação na primeiríssima infância me formei especialista, aprofundei meus saberes na abordagem Pikler, cursei aperfeiçoamentos em psicanálise e comecei a colocar em prática a figura do adulto de referência a partir da minha própria vivência analisando se de fato é tão importante quanto aprendi que é.


Minha primeira experimentação foi em 2018 e 2019 na educação não formal trabalhando em quintais brincantes com bebês e crianças bem pequenas. Durante o ano de 2020 vivemos a pandemia (situação online), depois em 2021 trabalhei com grupo de 3/4 anos e em 2022 como professora volante. Essa última função me proporcionou observar o trabalho de outras profissionais na sala do berçário I - composta por três turmas em um único espaço físico, o que resultava em uma sala com 21 bebês (7 por professora).


Nessa dinâmica as professoras optaram por não seguir a lista de matriculados em cada turma com sua respectiva professora e deixaram com que os bebês escolhessem qual delas seria a referência; inicialmente achei interessante, mas com o passar do tempo essa questão da escolha do bebê me trouxe questionamentos, pois a relação se constrói (assim como a relação materna, não escolhemos quem faz essa função) e se o bebê escolheu tal professora pode ser porque ela ofereceu mais atenção, o procurou mais vezes para interação e/ou teve um contato que o sensibilizou mais. E como fica se muitos escolherem uma professora, se alguma criança não escolher...achei complexo e senti falta da garantia dos direitos e da efetivação da qualidade do atendimento.


Outro detalhe que me deixou reflexiva foi que ao mesmo tempo que havia a professora referência, todas trocavam a fralda, a roupa, davam banho ou alimentação para todos os bebês. Portanto, achei confuso e senti necessidade de viver novas experiências dentro deste contexto do qual faço parte (escola pública) e buscar maior embasamento teórico, no sentido de aprimorar essa concepção dentro da educação infantil.


Em 2023 assumi uma sala de berçário II com bebês de 1 a 2 anos e vi uma grande oportunidade, a turma de berçário foi organizada com a junção de três agrupamentos (A, B e C) em um único espaço físico, o que resulta em 27 bebês (9 por professora) em uma única sala e o trabalho com 3 professoras por período. Por conta dessa realidade propus às minhas parceiras de período que adotássemos o sistema de cada uma ser o adulto de referência do seu agrupamento atribuído (sem rigidez), expliquei o porque e elas toparam. Deu muito certo! Em breve será disponibilizado um documento com um relato de parte dessa experiência. E esse ano (2024), continuo com berçário II, mas em dupla, 8 bebês para cada professora, 16 em uma única sala e já fiz a mesma proposta para minha parceira, ela topou!


Não é um assunto que tem um livro ou um texto específico com todas as respostas ou algo simples, há todo um sistema para que de fato faça sentido trabalhar com a figura do adulto de referência, o que trago aqui é uma breve reflexão. Sei que muitas educadoras acreditam e querem trabalhar dessa forma e encontram dificuldades para colocar em prática; quem sabe essas partilhas possam contribuir. Uma fator decisivo é que para se trabalhar com essa concepção é preciso abertura, flexibilidade, estudo, respeito, ética e parceria entre as professoras.


A leitura do texto A relação adulto-criança no espaço educativo complementa os saberes sobre o assunto. E para quem já é leitora/leitor do blog sabe que busco teorias de campos de estudos para além da pedagogia com a intenção de um olhar holístico, despertei para essa concepção a partir dos estudos principalmente sobre Winnicott, Bolwby e Brazelton, depois Emmi Pikler, Janet Gonzalez-Mena, Elinor Goldshmied e Sonia Jackson.


Do ambiente familiar para o ambiente educativo


Quando o bebê ou a criança bem pequena inicia a jornada no ambiente educativo pela primeira vez ou pela mudança de ano trocou de sala, de professoras e passou as férias em casa, nós precisamos saber lidar com a situação da separação mãe-bebê (criança bem pequena) ou de quem faz a função materna. Situação que pode causar estresse, angústia e ansiedade para o bebê ou criança bem pequena, pois gera muitos sentimentos e ainda há a necessidade de construir vínculos diferente desse familiar (pois não fazemos a mesma função), com uma professora de cada período - no mínimo.

Troca de fralda com participação

É um momento delicado, desafiador e de bastante acolhimento e sensibilidade da nossa parte. Os bebês e as crianças se comportam de diferentes formas nos comunicando como estão vivendo esse processo: algumas choram, outras alternam chorar e brincar, outras nos evitam, e outras nos agarram e querem colo o tempo todo. E assim fazemos observações considerando o medo do desconhecido, o incômodo, a passividade, a alegria, a iniciativa de nos procurar e a chateação por estarem nesse espaço contra a própria vontade.


Há situações em que finalizado o tempo de acolhimento inicial com horário reduzido, quando já iniciaram o período integral, alguns bebês ou crianças que se mostravam mais tranquilas começam a chorar e pedir mais atenção, parece que se dão conta que não é mais uma pequena parte do dia que passam lá, são 10 h por 5 dias da semana, o que parece não se conformarem. E é a construção do vínculo com a professora que sustenta esse bebê ou criança a sentir prazer de estar no ambiente educativo onde é bem acolhida, cuidada e há ambientes e materiais preparados com intenção e escuta.


Outra questão é considerar a cultura familiar, os seus rituais e hábitos incluindo-os na rotina da escola evitando que seja tudo extremamente novo para os bebês e crianças, pergunte se a criança tem chupeta, um paninho ou um objeto de apego. Converse com as famílias para saber como acontece em casa a troca de fralda, a alimentação, o banho, o sono, o brincar etc. Caso a família esteja acompanhando o bebê/a criança nesse momento inicial de inserção, observe, esteja junto. Tranquilize a família de forma que crie uma boa relação com comunicação clara e acolhedora, ao longo da construção do vínculo caso perceba um clima de disputa (inclusive em você mesma) ou ciúmes, converse aos poucos sobre a família ser insubstituível, pois nosso laço é profissional.


A professora-referência atende as respectivas famílias do seu grupo (sendo referência também nesse caso), criando uma relação de confiança e parceria onde os responsáveis pela criança se sentem mais a vontade para conversar sobre assuntos específicos, garantindo uma continuidade do atendimento. Acontece com frequência mal entendidos e conversas com muitas educadoras (seja professoras, secretárias, assistentes, coordenação, direção, etc) o que causa ruídos na comunicação e desconfiança. Na primeira reunião de pais explico essa forma de trabalho, depois no cotidiano a família vai compreendendo a efetivação e qualquer problema ou dúvida sempre me mostro aberta ao diálogo e proponho uma reunião individual se for necessário.


O quer dizer ser o adulto de referência na educação infantil? E porque trabalhar dessa forma?

(...)Apesar de os bebês terem contato com adultos que os alimentam e trocam suas fraldas, esses adultos podem variar a cada dia. Os bebês podem ser incapazes de distinguir um cuidador do outro ou podem achar que o comportamento de apego desses adultos não inclui reações de atendimento consistentes. Eles não tem ninguém para si - ninguém a quem possam influenciar. Por fim, essas crianças desistem e não tentam mais influenciar ninguém. Com a falta não só de apego, mas também de contato físico adequado, esses bebês são privados de toda uma variedade de inputs sensoriais que acompanham uma relação saudável. Eles se tornam passivos e resignados, o desenvolvimento deles atrasa e eles podem falhar em prosperar de diversas maneiras. (GONZALEZ-MENA; EYER, 2014, p.103 e 104).

Esse início de ano é fundamental para focar no processo de acolhimento e construção do vínculo com os bebês e crianças. Para quem acha que tudo bem ser cada hora um adulto diferente nos momentos de cuidados, não considera o bebê e a criança pequena uma pessoa, que tem sensações e sentimentos, falta empatia ou mesmo conhecimento sobre o desenvolvimento infantil, talvez por uma concepção de educação infantil mais tradicional. Pense na cena frequente que é quando estamos com os bebês e crianças na sala e entra um outro adulto no ambiente e todo mundo começa a chorar, pois leem como uma pessoa estranha, que não tem vínculo. A importância de ser sempre o mesmo adulto está na permanência que tem a ver com a continuidade do ciclo de cuidados e a previsibilidade, ambos promovem a sensação de segurança e confiança.


Quando há uma única professora na turma, a mesma faz o papel de professora-referência, caso haja mais de uma e/ou turma é interessante considerar a possibilidade de colocar em prática essa concepção (ao invés de fazer o atendimento aleatório) para refletir sobre um novo modo de fazer e pensar sobre ser professora de bebês e crianças bem pequenas, elas chegam a passar até 10 horas em instituições educativas (na minha realidade) sobre nosso cuidado em uma fase única e estruturante de desenvolvimento.


É a partir dessa relação privilegiada que a construção do vínculo acontece nos momentos de colo, de troca de fralda ou de roupa, durante a alimentação, o acalento para o sono, momentos que conseguimos dar uma pequena atenção individual - que precisa ser qualificada, não adianta ter a professora-referência e o bebê/a criança ser tratada com indiferença com gestos roteirizados e mecanizados. Para melhor compreensão dessa forma de trabalho, antes é preciso ter a consciência da importância dos momentos de cuidados (troca de fralda/roupa, sono, alimentação, banho, etc) e da relação adulto-criança.


Massagem para dormir, interação durante a troca e pesquisa debaixo da saia da professora (com shorts).

São nas situações de cuidados e de sustentação emocional que a troca afetiva se fortalece e cria-se uma relação de intimidade. Fruto de um investimento recíproco onde nos tornamos um alicerce para que o bebê ou a criança se sinta segura, confiante e protegida, certa de que haverá consolo e apoio quando expressar suas emoções, seja de alegria e entusiasmo; seja de frustração, raiva, medo, etc. Nos tornamos pessoas que têm um significado especial para seu bem-estar emocional e aos poucos elas vão ampliando os vínculos com as demais professoras e educadoras do ambiente educativo. É importante que a construção dessa relação tenha como base o desenvolvimento da autonomia, da independência, da liberdade e a abordagem Pikler é soberana e pioneira nesse quesito.


A ideia não é ter um adulto exclusivo, mas promover uma relação de intimidade e facilitação da comunicação por esse laço estabelecido ou em construção. É preciso que o bebê e a criança se relacione com as demais professoras e educadoras, porém é a professora-referência que conhece melhor suas necessidades e acompanha o seu desenvolvimento. Um adulto sensível, respeitoso e receptivo que sabe fazer a leitura da comunicação não verbal dos pequenos.


Carinho no rosto para dormir

Assim, a construção do vínculo se estabelece de forma mais saudável, pois percebemos bebês e crianças mais tranquilas e exploradoras. Não faz nem 1 mês que iniciamos o ano letivo e tenho bebês que já me olham com sorriso quando chamo para trocar a fralda, percebo o prazer que sentem neste momento de cuidado. Outras ainda se mostram desconfiadas, normal, cada uma tem seu ritmo. E para quem tem dúvidas, elas aceitam ser trocadas por outra professora se necessário, mas a relação que está se estabelecendo entre nós é única porque é permanente, estamos nos conhecendo cada vez mais, além de já começarem a reconhecer seus próprios pertences e participarem desses momentos.


Independente do que o bebê ou a criança vive em família, nós temos nossa responsabilidade e compromisso ao escolhermos trabalhar com educação, pois deixamos marcas, somos modelo de relação e troca afetiva. Precisamos conversar com os bebês e as crianças, olhá-las nos olhos, na sua altura, tratá-las como pessoas, inclui-las em tudo que lhes diz respeito. Elas se sentem importantes, validadas e passam a colaborar e nos admirar, sabem que nós a conhecemos a ponto de saber ler seus sinais ou atender suas queixas suprindo suas necessidades. E lembre-se para um processo de interação respeitoso é preciso dar tempo à elas, tempo de resposta, de tentativas para aprender a participar e fazer por si mesma pequenas ações.


Ser professora de educação infantil não é uma tarefa simples na nossa realidade. A quantidade de bebês e crianças interfere na qualidade, muitas vezes nos limitam mesmo fazendo o melhor. Tem o lado emocional também de lidar com o apego dos bebês e crianças, elas sentem ciúmes, não gostam que saímos da sala (por insegurança), quando há algum problema familiar percebemos mudanças comportamentais, algumas só dormem se estivermos ao lado do colchão fazendo carinho, sentem nossa falta quando nos ausentamos e demostram alegria quando retornamos. Exige todo uma inteligência emocional do adulto, somos a figura de afeto que acalenta, acolhe, acalma e também a que põe limite, conversa e faz as intervenções necessárias - inclusive não devemos criar relações a base da troca e sim do respeito e diálogo. Elas percebem quando falamos e não praticamos.


Nessa faixa etária, os bebês e crianças estão estruturando seu psiquismo, desenvolvendo sua personalidade e construindo sua identidade, ou seja, constituindo-se como sujeitos. O trabalho com a concepção de adulto referência contribui com o desenvolvimento integral em todas as suas dimensões (afetiva, intelectual, física, social e cultural). Será que temos conhecimento o suficiente para atuar com cada uma delas? Será que focamos em algumas e deixamos outras de lado? Vale refletir ao realizar o seu planejamento.


Como diz Wallon, as aprendizagens se dão por meio da afetividade, no sentido de afetar e ser afetado, ou seja, onde a dupla é afetada. Seja nos momentos de cuidados, de preparação de materiais, espaços e ambientes, seja com intervenções e situações criadas onde a criança pode escolher, perceber, respeitar as diferenças e ter a possibilidade de expressar-se. Essa construção do vínculo afetivo está ligada ao bebê ou a criança se sentir mais a vontade para explorar o ambiente.


Caso você não trabalhe com esse sistema, ainda dá tempo de colocar em prática!



*Todos os direitos autorais das imagens e texto reservados para Marcela Chanan. É proibida sua cópia sem autorização prévia. O compartilhamento da publicação na íntegra diretamente do blog (link e via redes sociais) é livre. Para impressão é obrigatório colocar a referência.


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Para saber mais...

  • Livro: O cuidado com bebês e crianças pequenas na creche: um currículo de educação e cuidados baseado em relações qualificadas por Janet Gonzalez-Mena e Dianne Widmeyer-Eyer.

  • Livro: Educação de 0 a 3 anos - o atendimento em creche por Elinor Goldschmied e Sonia Jackson.

  • Livro: Manual de educação infantil - de 0 a 3 anos. Anna Bondioli e Susanna Mantovani.

  • Livro: Abordagem Pikler - educação infantil, organizadora Judit Falk.


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