• Marcela Chanan

Para pensar os materiais e/ou brinquedos na educação infantil

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A brincadeira é a maior expressão

do desenvolvimento humano na infância,

pois é a expressão livre do que vai na alma da criança.

Friedrich Froebel


Começo do ano letivo, novos grupos, novas experiências, hora de organizar e selecionar materiais e brinquedos para a sala referência. A citação do Froebel nos mostra o quão importante é a brincadeira da criança e os materiais-brinquedos fazem parte deste brincar, portanto é um assunto que precisa ser estudado por toda equipe pedagógica.


São comuns as práticas fundamentadas, quase que exclusivamente, pelos brinquedos de plástico: há pouca materialidade, muitas personagens do consumo, muito rosa, brinquedos estereótipados, diversos monta-monta de baixa qualidade, e volto a dizer, tudo muito colorido - já escrevi no blog sobre a influência das cores. Os brinquedos de marca e com personagens estimulam o consumismo: as crianças querem porque passou na televisão, porque o amiguinho tem, logo chega outra moda ou novidade e as crianças abandonam o brinquedo por outro.


O Currículo da Cidade de SP (2019, pág.29 ) trata da importância de nos contrapormos (função da escola) ao consumismo e ofertar alternativas que valorizem a cultura e as relações sociais por meio do contato com os materiais naturais (terra, areia, plantas, água etc) e as brincadeiras mais simples - o que não pode ser comprado.


Refeltir sobre tudo isso é considerar a dimensão estética, ética e política como essencial na educação de bebês e crianças, trata-se de um ambiente educativo com valores e concepções, diferente de outros espaços no qual a criança circula.


Para ser um(a) professor(a)de educação infantil comprometido(a) e responsável, é preciso ter clareza das escolhas que se faz, pois estão diretamente relacionadas a concepção de criança, de aprendizagem e de escola da infância. Sendo assim, se faz urgente (re)pensar sobre:


Quais tipos de materiais ofertamos a bebês e crianças e qual a qualidade das experiências proporcionadas?


As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil podem ser consultadas para nortear as escolhas por meio dos princípios éticos, estéticos e políticos, nos quais devemos respeitá-los ao preparar as propostas pedagógicas como por exemplo, refletir sobre alguns aspectos:

  • não existe brinquedo para menina e para menino, brinquedo é para criança, chega de brinquedo rosa e azul! Saiba mais sobre as questões de gênero aqui;

  • bonecas e bonecos com diversidade em suas cores (pele, cabelos, olhos), corpos e sexo;

  • ao invés de fantasias estereótipadas e com personagens do consumo, ofereça tecidos, coletes, chapéus, capas, perucas, óculos etc;

  • livros com histórias de todo o mundo, de todas as culturas sem prevalecer uma história única como nos ensina Chimamanda Ngozi Adichie nesse vídeo e considere também as materialidades dos livros.

Não reforce estereótipos! Devemos combater preconceitos relativos ao pertencimento étnico-racial, de orientação sexual, gênero, classe social, religião, padrão corporal, deficiências, etc. Vamos estimular o respeito à todas formas de vida, enfatizar valores como liberdade, igualdade e solidariedade ( Campos de experiências : efetivando direitos e aprendizagens na educação infantil , 2018, pág. 6 e 7). Lembre-se de olhar para dentro de si e fazer uma autoavaliação sobre essas questões em sua própria vida.


Defendo a presença quase que total de materiais na educação infantil, pois eles se transformam em brinquedos sem determinar a brincadeira e oferecem múltiplas ações e possibilidades de criação. Acredito na necessidade de uma quantidade mínima de brinquedos industrializados, no meu ponto de vista, se for para ter alguns tipos que sejam animais e dinossauros (sem ser aqueles de plástico que não dura nada e não oferece uma estética interessante), carrinhos de madeira ou de ferro (sem marca ou personagem aqueles carrinhos básicos de ferro), bonecas e bonecos ( de pano também que tenha diversas representatividades sem estereotipar nenhuma delas), panelinhas e forminhas de alumínio (chega de plástico rosa!).

Os materiais de plástico têm suas utilidades, não defendo excluí-los e sim ampliar as materialidades que oferecemos na escola e substituir algumas. O plástico é um dos protagonistas da grande crise ambiental da qual vivemos: o brinquedo ou o material quebra, jogamos fora e ele demora muito para se decompor (até 400 anos), os mares estão repletos de plástico, a biodiversidade morre diariamente. Se escolher plástico que seja com uma qualidade de alta duração.


Nas minhas observações cotidianas percebo que o brinquedo industrializado apenas distrai, ocupa e/ou passa o tempo da criança por sugerir a brincadeira e limitar a imaginação. A criança não cria diversos enredos e narrativas, ela brinca e logo perde a graça, solta e vai em busca de outro, e essa busca não cessa (o excesso de cores incomoda). Também é comum se apegar a um carrinho ou personagem, por exemplo, e passar a jornada brincando apenas com ele porque é de tal personagem ou marca.

A escola da infância é lugar de pesquisa, de construção de conhecimento, de formação da cidadania e de viver seus direitos civis e pedagógicos, não é lugar para entreter bebês e crianças, nem fazer trabalhinhos ou atividades prontas em folha, muito menos para satisfazer os gostos dos adultos.


Para trabalhar com materiais, não basta tê-los, é preciso saber o que fazer com eles, ou seja, saber como preparar contextos com intencionalidade pedagógica. Também é imprescindível que professores e professoras vivam experiências com esses materiais antes de oferecê-los a bebês e crianças.


O que chamo a atenção nessa publicação, é a necessidade de compor um inventário de materiais e materialidades de qualidade para além destes brinquedos industrializados e quebrar essa prática, doar desses brinquedos (pode ser útil em outros espaços), transformar e potencializar o brincar de bebês e crianças. Vale a pena ressaltar que os materiais de largo alcance devem ir para além do plástico, pois ainda há muito plástico mesmo entre eles.


Devemos dialogar com as famílias e com a comunidade ao entorno, explorar o território e fazer parcerias para conseguir doações de materiais descartados. Pesquise essa possibilidade com costureiras, marceneiros, chaveiros, padarias, supermercados, borracharias, lojas de material elétrico, além de outros estabelecimentos e até a compra de alguns itens.


Ao me referir ao material de descarte, não é descartável (uso raramente e não vejo muita potência nesse material que se usa uma vez e joga fora), precisamos ensinar o cuidado com os materiais que usamos, pois interagimos, construimos, recolhemos, guardamos, desmontamos, fotografamos etc. Não é qualquer objeto descartado que se transforma em material de largo alcance, lembre-se da dimensão estética. Não é resto, nem coisa quebrada. São materiais que trazem potência na sua matéria e formato.


Optar pelo uso, quase que totalitário dos materiais e suas materialidades, valoriza a sensibilidade e a criatividade da criança em relação as explorações e tudo que podem criar com os materiais.


O Território do Brincar tem uma pesquisa profunda sobre o brincar e as infâncias de diversas regiões do Brasil. Assista esse vídeo da Renata Meirelles:

Antigamente, as crianças brincavam com objetos de rituais, esses eram seus brinquedos, vejamos no livro "Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação" de Walter Benjamim (1928, pág. 69):


"Conhecemos muito bem alguns instrumentos de brincar arcaicos, que desprezam toda máscara imaginária (possivelmente vinculados na época a rituais): bola, arco, roda de penas, pipas – autênticos brinquedos, tantos mais autênticos se parecem quanto menos se parecem ao adulto. Pois quanto mais atraente (no sentido corrente) forem os brinquedos, mais distantes estarão de seu valor como 'instrumentos' de brincar."


Bebês e crianças brincam com qualquer objeto, portanto o material é um brinquedo. Por esses materiais podemos conhecer um pouco do pensamento infantil durante o brincar: como constroem conhecimento, imaginam, se expressam, se comunicam e sentem. As crianças atribuem significado, produzem cultura e modos de ver o mundo.


Vou citar três referências que ao longo do meu percurso na educação, me fizeram repensar e pesquisar sobre o uso dos materiais:


- a abordagem Reggio Emilia foi a grande inspiração (tive o prazer de poder conhecer a cidade, as escolas e participar de um seminário), comecei a refletir sobre a presença de materiais na escola da infância e descobri que lá os materiais são tidos como uma linguagem, tamanha potência criativa e expressiva oferecem. São usados tanto para brincar, jogar, investigar, sensibilizar, descobrir e criar.

- a abordagem do Brincar Heurístico, com sua diversidade de materiais e materialidades, originalmente sem plástico, estão bem apresentadas em outras duas publicações do blog https://www.blogculturainfantil.com.br/post/bebê-brinca-do-quê e https://www.blogculturainfantil.com.br/post/os-bebês-e-o-cesto-dos-tesouros , embora direcionadas aos bebês, a abordagem é trabalhada em toda a educação infantil e tem outros desdobramentos.


- a escola Jardin Fabulinus, localizada na Argetina, tem uma prática pedagógica inspiradora com jogos de construir apresentada no livro "Construção e a Construtividade - Materiais naturais e artificiais nos jogos de construção", é uma grande contribuição.


A partir da minha experiência, lembro de tentar uma aproximação com esse conceito de materiais usando as sucatas (que são embalagens interessantes sem rótulos, pois fica esteticamente mais agradável, e vale considerar a qualidade e durabilidade), mais tarde com os materiais não estruturados (do qual nos aproximamos mais ao reaproveitar materiais do comércio e objetos do cotidiano), depois com os materiais de largo alcance, brinquedos heurísticos e materias naturais. Acredito que por isso, às vezes haja confusão sobre o que é o quê.


E por fim e talvez o mais importante, são os materiais naturais, sem ser o comprado, falo sobre o contato direto com a terra, a água, a areia, as plantas...O tanque de areia por exemplo, é indispensável que seja areia de verdade e bem planejado de acordo com o que o espaço oferece e com a possibilidade de bebês e crianças usufruirem de toda a potência que esse material natural oferece. Pecisamos garantir o acesso a água para brincar, a terra para se lamear e as plantas para apreciar, conhecer e brincar. Esses são os primeiros materiais artísticos! Confira https://www.blogculturainfantil.com.br/post/infância-e-natureza-primeiras-experiências


Os materiais naturais são sensoriais e as crianças criam uma relação mais profunda com eles, pois são materialidades vivas, não frias sem vida. Os materiais naturais mais específicos podem ser coletados na escola, em casa, em uma praça, em um parque ou mesmo comprados para aqueles que têm em sua essência a natureza.


Tonnuci (2008) em seu livro "Los materiales", ressalta que estamos falando de materiais que as crianças é que dão sentido, constroem, criam, inventam, investigam e produzem. Esses materiais têm um efeito positivo no desenvolvimento expressivo das crianças, quando oferecido desde muito pequenos. São meios de comunicação e expressão, onde a criança se mostra ativa em um ambiente onde o inventar é valorizado e desejável. Não há certo ou errado nem modelo a seguir.


Mesmo o tal brinquedo pedagógico tem suas questões, estamos sempre querendo ensinar, sem ver o que as crianças nos trazem, elas apreendem o mundo e o mundo está aqui! Diminuimos a criança achando que somos nós que ensinamos ou esses materiais pedagógicos que vão ensinar, sendo que elas aprendem por elas mesmas na relação com o mundo, e os materiais fazem parte do mundo. Por isso a intencionalidade precisa estar sempre presente.


Para finalizar gostaria de ressaltar a questão do desenvolvimento sensorial, pois às vezes parece que só pelas propostas sensoriais é que os bebês e as crianças pequenas conhecerão as texturas: não! Os materiais naturais, de largo alcance e os artísticos fazem parte das experiências sensoriais, não precisamos criá-las, o mundo é sensorial! Precisamos é transformar os espaços e o materiais, e parar de oferecer só plástico e piso emborrachado, levar bebês e crianças para o lado de fora, a natureza é polissensorial.


Vamos manusear o belo, nos encantar com as estéticas, nos conectar com a natureza que é vida!


Deixem o bebê a a criança pequena usar as mãos, experimentar com a boca, sentir com ouvido e o nariz, deixem-na brincar e investigar por ela mesma! Crie o contexto, observe, aprenda, questione, registre, reflita!


Espero que essa leitura contribua para a busca de uma transformação em seu olhar e prática pedagógica!



Obs.: Alguns dos materiais (de madeira e bolachinhas de tronco) que estão na primeira foto da publicação são do http://www.ateliequeroquero.com.br/


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*Todos os direitos autorais das imagens e texto reservados para Marcela Chanan. É proibida sua cópia sem autorização prévia, o compartilhamento da publicação na íntegra diretamente do blog (fonte original) é livre.

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