• Marcela Chanan

A relação adulto-criança no espaço educativo: tudo começa aqui!

Por Marcela Chanan


Este é mais um daqueles assuntos que me inquietam bastante: a relação do adulto com o bebê e a criança no cotidiano do espaço educativo. Essa relação tem como base o comprometimento ético, o respeito, a empatia e a consciência de que as relações impactam no desenvolvimento emocional e cognitivo dos infantes. Portanto, exige estudo, reflexão e autoconhecimento para construção de uma relação afetiva saudável.


O assunto é amplo e meu foco nessa publicação será especificamente as sutilezas das interações: a forma de olhar, falar, tocar e os gestos. Ações que exigem disposição e interesse por parte do adulto para repensar a postura que está automatizada ou normalizada. Já parou para pensar sobre como está sua comunicação com os bebês e as crianças? Se seus gestos estão sintonizados com sua fala ou se você fala uma coisa e faz outra e vice-versa?


A atitude do adulto tem a ver com a imagem de criança que traz dentro de si. Por isso, lhe convido a olhar para dentro, para como foi sua infância: revisitar fotos, pensar sobre os momentos que te marcaram, conversar com familiares, buscar a sua essência. Voltar a essas memórias nem sempre é fácil, pois estão permeadas de sentimentos nem sempre agradáveis, mas é necessário para se entender e melhorar sua sintonia com as crianças. Assista Tarja Branca esse documentário pode ampliar as reflexões sobre a sua criança interior.


Seja sincera(o) consigo mesma(o), permita-se sentir, assuma os pontos que exigem atenção e investigue o porque certas situações lhe incomodam ou agradam, busque equilibrar as emoções. Pois oferecemos o que somos, a partir das nossas experiências de vida, um dia fomos crianças e recebemos cuidados e modelos de relação. Ter consciência do que te habita despertará maior sensibilidade no tratamento com as crianças. No entanto, para além desse olhar para si mesma(o) é preciso estudar, praticar e refletir sobre as interações cotidianas e também trocar com outras(os) educadoras(es). Com o passar do tempo, conforme você se abre, perceberá que na relação adulto-criança a dupla aprende e cresce juntos, o adulto afeta e é afetado. Seu papel na aprendizagem e no desenvolvimento dos bebês e das crianças é fundamental.


Lembrando que a criança (incluindo sempre o bebê) é uma pessoa, um ser ativo, um sujeito histórico, social, cultural e de direitos que aprende por meio da interação e do brincar, se desenvolve integralmente de forma não fragmentada e não linear, cada uma no seu ritmo e com suas singularidades. Essas concepções - que são bem mais amplas, fortalecem uma prática pedagógica que busca o bem-estar com a centralidade na criança e a construção do vínculo por interações respeitosas gerando uma relação de confiança e segurança entre o adulto e a criança.


Cuidar, Educar e Acolher


Mais um ano letivo se inicia e o assunto central é acolhimento! Preparar a sala referência e os demais ambientes de forma agradável para atender as necessidades das crianças é essencial, pois influencia no comportamento, nas sensações e nas relações, mas muitas vezes o que falta é o adulto estar preparado. Ainda é comum, por exemplo, ouvir "Não pego no colo para a criança não acostumar, não ficar mimada!".


A construção de uma relação de qualidade acontece quando existe renúncia do adultocentrismo em busca da libertação de padrões, de certezas, da cegueira, da tirania, da intolerância para uma postura aberta a aprender e conhecer sobre e com as crianças em todos os momentos da jornada cotidiana. E as oportunidades são inúmeras!


Acolher é uma atitude permanente. No entanto, como educadoras(es) acolhemos e também precisamos de acolhimento da equipe gestora em diferentes momentos do ano, como uma rede de sustentação.


Penso no adulto como se fosse um ninho que sustenta as necessidades (físicas e emocionais) da criança, onde ela encontra abrigo e contenção para seus sentimentos, seja em momentos de estresse ou de alegria. Por isso, é urgente aprender a validar os sentimentos das crianças, sem minimizar as situações e compreender a partir da perspectiva da criança. Vou pontuar alguns exemplos de forma breve:

  • o choro é uma linguagem, uma forma de comunicação, de expressão dos sentimentos, portanto não espere que o choro pare imediatamente e sim acolha, ofereça colo e busque compreender o motivo;

  • a disputa por um brinquedo ou material é comum, faz parte do processo de interação com o outro;

  • o não dividir/emprestar um objeto faz parte do desenvolvimento da criança, não deve ser obrigada a compartilhar;

  • a ajuda desnecessária frequentemente causa conflito entre o adulto e a criança, deixe-a resolver ou fazer uma ação do jeito que ela mesma achar melhor;

  • o machucado/tombo para o adulto pode parecer nada, mas para criança dói, assusta, por exemplo, a sensação de se desequilibrar e cair para trás é angustiante;

  • a raiva não é feia, pode sentir raiva sim, como adultos precisamos oferecer estratégias para a criança lidar com esse sentimento sem colocar em risco a sua integridade ou a do outro;

  • a agressividade não é feia, esbravejar em cima de um bebê ou uma criança quando ela bate, morte, puxa o cabelo, empurra, não educa em nada. A educação se dá pelo diálogo, é preciso intervenções claras e objetivas;

  • a recusa em participar de algum momento e preferir ficar olhando é um direito.

Situações comuns e delicadas, mas que precisam de estudo e aprofundamento por parte do docente. Se alguns destes pontos mexe com você, lembre do que disse no início do texto, busque equilibrar as emoções e se for o caso peça ajuda de outro adulto.


Acolher também é estar atenta(o) aos desejos e curiosidades de conhecer os espaços, os materiais, as pessoas. Por isso, os ambientes precisam ser convidativos, esteticamente agradáveis e com possibilidades para se estar só ou em grupo em contextos diversificados.


Cuide da postura excessiva que não dá espaço para a criança ter iniciativa própria. Ela precisa de espaço (psíquico) para constituição da subjetividade, o adulto pode acabar estressando a criança de tanto se intrometer enquanto brinca, explora, investiga, se movimenta ou se expressa, respondendo por ela sem dar tempo de manifestar-se ou mesmo atrapalhando a concentração e a oportunidade dela conhecer por si mesma. As crianças precisam de liberdade, tempo e espaços preparados para explorar com autonomia.


O comportamento por vezes sufocante do adulto causa dependência, no sentido da criança sempre desejar agradar para ser aprovada, isso abala a autoestima e o sentimento de capacidade, tornando a motivação externa e não interna. Muitas vezes, a forma da criança se relacionar se torna padronizada, anulando sua singularidade, seus modos de ser e ver o mundo. Também há crianças que desistem de ser curiosas e as que não ficam bem emocionalmente, veja como a relação afeta os pequenos.


Se o espaço está cheio de barreiras onde o adulto precisa ficar falando "não pode" toda hora, quer dizer que o espaço/ambiente não atende as necessidades da criança e está inadequado, não é ela o problema. Bebês e crianças precisam viver experiências potentes planejadas pelo adulto com intencionalidade pedagógica, alinhada aos documentos que garantem os direitos infantis.


Uma postura respeitosa pressupõe presença, atenção, escuta, abertura, paciência e acolhimento - dentre tantas outras atitudes. Lembrando que afetividade não é sinônimo de abraço e beijo, ser um adulto afetuoso está na forma de se relacionar: as palavras e o tom de voz que escolhe usar, a intensidade do toque, o olhar sensível e a gestualidade carinhosa. E lembre-se de chamar o bebê/a criança pelo nome próprio.


Os momentos de atenção pessoal são primordiais para atender as necessidades (físicas e emocionais), como é sabido o cuidar e o educar são indissociáveis. A troca de fraldas/de roupa, o banho, a alimentação ou a preparação para o sono são momentos privilegiados de atenção e cuidado individual. Para além da satisfação das necessidades físicas da criança, é um momento compartilhado de troca afetiva.


O cuidado não tem um roteiro preestabelecido ou um tempo determinado, mas há técnicas, por exemplo, no sentido de melhores formas de segurar a criança para ela se sentir mais segura, não é uma postura mecânica, pelo contrário é delicada e lhe traz uma boa sensação. É importante que esse cuidado tenha continuidade, pois a criança está em desenvolvimento, o ideal é que toda a equipe pedagógica tenha essa postura e a o bebê/a criança tenha um adulto referência.


Durante essas atividades de atenção pessoal a criança deve ser convidada a participar, desde bebê: o adulto faz uma "leitura" das manifestações, responde e espera, dá tempo a reciprocidade, ao envolvimento do infante nessa interação. Uma relação ativa, cria uma sintonia entre a(o) educadora(r) e a criança, pois ela se sente valorizada, escutada, respeitada, confortável com o vínculo. Essa sintonia gera uma conexão em que o adulto se identifica com o bebê/a criança, essa identificação é uma abertura psíquica para receber o que a criança traz e estabelecer a relação. A criança se sente importante, ela sabe que o adulto a acompanha e está atento aos momentos em que ela explora o ambiente, os materiais as interações com outras crianças se mantendo disponível sem intervenções excessivas, propiciando a atividade autônoma. E exatamente por isso também admira o adulto.


Os cuidados pessoais estão a serviço da criança, não do adulto se sentir satisfeito em trocar todas as crianças, uma na sequência da outra, para entregá-las as famílias limpinhas e alimentadas com a sensação de trabalho cumprido, de eficiência. Essa concepção de produtividade, de agilidade da prática pedagógica não pode acontecer. Competência é respeitar a infância!


A relação adulto-criança atua na saúde mental, na constituição desse ser, deixamos marcas (sensações e sentimentos) na história pessoal de cada criança: você já se perguntou que marcas têm deixado? Quais palavras têm direcionado às crianças ou mesmo no ambiente em que elas estão? Suas mãos tocam o corpo delas com pressa e agilidade ou delicadeza e respeito? De que forma você passa o lencinho/o algodão/o papel no corpo da criança ao limpar a fralda ou ensinar a se limpar sozinha? Você olha no olhos da criança, convida a participar, espera, observa, faz gestos que sejam previsíveis, conversa sobre o que está acontecendo?


O olhar estigmatizante


Lembrei dessa charge do Franceso Tonucci (Frato), do quanto se coloca rótulos nas crianças e o adulto se acha 'o normal'.

Basta o bebê ou a criança se mostrar diferente da maior parte do grupo para o adulto 'achar' um problema, um atraso ou até apoiar um diagnóstico precoce e/ou uso de medicação.

Precisamos ter muito cuidado, trabalhamos com vidas! Sim, é preciso estar sempre atenta(o) e estudar para saber quais são os sinais que indicam a necessidade de um acompanhamento especializado. Porém, muitas crianças precisam apenas estabelecer uma relação de confiança e segurança com o adulto e ter experiências que façam sentido para elas. Lembrem-se elas são crianças com meses ou poucos anos de vida neste mundo, será que não estamos sendo exigentes demais ou idealizando uma tal educação infantil? Será que sua visão sobre o desenvolvimento infantil não está padronizada?


Algumas ações para serem realizadas antes de defender um diagnóstico:

  • Se perguntar se o problema não está em si mesma, na forma de comunicação, de se relacionar, nas intervenções, nas concepções, nas propostas pedagógicas que cria e na estrutura oferecida (será que elas estão mesmo atendendo as necessidades das crianças?);

  • Estudar, pesquisar, participar de grupos de estudo sobre desenvolvimento infantil, intervenção precoce, diagnósticos e medicalização na primeira infância (para compreensão de quão delicado é esse assunto);

  • Ler a ficha de entrevista que a família preenche no início do ano e/ou os relatórios anteriores (se houver);

  • Conversar com o grupo de professoras e buscar intervenções que possam contribuir;

  • Chamar a família para conversar sobre como é o cotidiano, a cultura e as relações familiares em casa para compreender melhor o bebê ou a criança;

  • Solicitar que a Coordenadora observe a criança quando estiver com você para ajudar em possíveis mediações ou mesmo repensar as práticas, dentre outras ações específicas, pois cada caso é um caso.

Outras situações...


Falar mal do bebê ou da criança não pode acontecer nem na presença nem na ausência das mesmas, tratar crianças de formas diferentes nos sentido de ter os preferidos e os reprimidos - os que sofrem as pequenas violências cotidianas, é um comportamento adulto antiético e preconceituoso, demonstra o despreparo docente. Embora o bebê não entenda, ele sente, todas as crianças sentem e esse comportamento do adulto impacta negativamente no desenvolvimento emocional. Veja sua responsabilidade! Elas sabem quando os adultos não gostam delas. Inclusive tratam e se comportam de diferentes formas dependendo do adulto, o que revela muito sobre como estão as relações.


Também é comum olhar para o que falta, o que a criança não consegue e o que mais se fala é "a falta de limite". Não queremos mais obediência, submissão, controle e opressão, a relação se dá por respeito, confiança, segurança e não à base da troca ou do medo. Autoridade e autoritarismo são conceitos diferentes. A forma como tratamos as crianças revela sobre o adulto que somos.


As crianças estão em desenvolvimento, não nasceram prontas, será que você não está com uma visão muito simplista? Conhece o desenvolvimento infantil pelo olhar de diferentes campos de estudos? Estamos tratando de identidade pessoal, de constituição da subjetividade. Será que a criança é realmente vista pelo adulto nas suas singularidades?


Lidar com crianças não é fácil, muitas vezes nos suga emocionalmente, mas culpabilizá-las não é o caminho. Eu mesma já passei por este processo, e sim, no início do meu percurso docente minhas referências eram opressoras, rotulantes e padronizadas. Mas o comprometimento ético, o estudo (descobrindo novos olhares e concepções), a escuta das crianças e a disposição em transformar as atitudes me salvou do 'sonho de ser opressora', como já dizia Paulo Freire.


Vamos cuidar também de analisar se não somos a figura do adulto que sempre já sabe, já faz e já tem um discurso pronto, sem flexibilidade. Nesses casos, é o adulto quem precisa de ajuda e acolhimento para ressignificar seus saberes e fazeres. Aqui o papel da Coordenação Pedagógica na formação dos profissionais, no acompanhamento cotidiano por meio de observações, devolutivas de registros, momentos de estudos com provocações, reflexões e trocas no coletivo e no individual, assim como a orientação de que algumas concepções são inegociáveis. A gestão também tem sua responsabilidade, se permite que práticas desrespeitosas continuem acontecendo no espaço educativo.


Nós aprendemos sobre as relações, vivendo, nos relacionando e é assim que a criança aprende, tendo nós também como modelos de relação, afinal passam a maior parte dos tempo de suas vidas nos espaços educativos e independente do que ela vive na casa dela, nós temos a responsabilidade de oferecer o melhor.


A relação precisa ser um encontro prazeroso. As crianças refletem o que elas vivem, o que experimentam nas relações.


Confira abaixo algumas situações significativas que vivi e fiz um pequeno registro:

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Para saber mais...

  • Livro: Diário do acolhimento na escola da infância por Gianfrano Stacciioli.

  • Livro: O cuidado com bebês e crianças pequenas na creche: um currículo de educação e cuidados baseado em relações qualificadas por Janet Gonzalez-Mena e Dianne Widmeyer-Eyer.


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