• Marcela Chanan

Bebê brinca do quê?

Atualizado: Jul 12

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"O brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde. O brincar conduz aos relacionamentos grupais [...] A serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros." Winnicott


Esse é um relato de experiência sobre o trabalho com bebês de 10 a 18 meses em um espaço de educação não formal.


A proposta pedagógica contava com diferentes referências: o olhar sensível para as atividades pessoais, o brincar e o movimento livre da abordagem Pikler; as vivências com múltiplas linguagens orientadas pelos campos de experiência (BNCC); e a abordagem do brincar heurístico em relação a escolha de materiais e a como o bebê, de maneira autônoma, interage com os objetos de forma curiosa e realiza descobertas.


Os bebês eram convidados, cotidianamente, a explorar materiais, espaços, vivências, relações e interações. A oportunidade perfeita para minha pesquisa pessoal de registar a potência infantil desde tão pequeninos.


Como o dia iniciava e terminava na sala referência do grupo, o planejamento era do contexto: focava a intencionalidade na organização do espaço e dos materiais, a partir de observações diárias de como eles usavam e se relacionavam com o espaço, os materiais e entre eles.


Mantinha a organização por uma semana ou um pouco mais, dependia da resposta dos bebês em relação as explorações e as interações. Mesmo assim, não eram grandes mudanças: os colchões para dormir e descansar ficavam sempre no mesmo lugar, as prateleiras com materiais diversificados e bolsas também, inclusive o local de beber água. A reorganização era mais dos móveis piklerianos e dos materiais para manter o interesse, a curiosidade, a continuidade e a linearidade das investigações.

O brincar heurístico é um brincar ativo, espontâneo, autônomo, concentrado, no seu ritmo, com o corpo todo; eles se comunicam, se expressam, escolhem, exploram os objetos e suas propriedades, se surpreendem e desenvolvem habilidades. É possível observar as intenções, as relações e os "projetos" que estabelecem enquanto manipulam os objetos.


É comum observar ações como colocar e tirar, encher e esvaziar, abrir e fechar, agrupar e separar, empilhar e derrubar, tampar e destampar, encaixar, jogar, apertar, esticar, comparar, girar, empurrar, dentre outras. Descobrem se determinados materiais cabem ou não dentro de outros, que uns são grandes e outros pequenos, alguns encaixam bem outros nem tanto, alguns são agradáveis e outros não, alguns rodam outros são quietos, uns se sustentam outros caem, verificam o peso, o equilíbrio... Enquanto brincam parecem fazer perguntas, testar hipóteses e buscar respostas!

A abordagem Pikler amplia e aprofunda o olhar sobre essas ações e descobertas que estão presentes no brincar livre, em uma pesquisa sobre como o brincar se desenvolve na primeiríssima infância: o primeiro brinquedo do bebê, a descoberta das mãos e as possibilidades de manipulação e exploração dos objetos, os repertórios do brincar como as coleções e as diferentes formas de construções. E outros assuntos que envolvem esse brincar.


Essas ações, descobertas e testes aconteciam com muita frequência nos diversos ambientes que os bebês frequentavam. Na frente da sala referência tinha um corredor que aproveitava para montar algumas experiências diferentes das que tinham dentro da sala. Os bebês escolhiam esse espaço de acordo com o interesse, na maior parte das vezes em pequenos grupos depois do almoço.


O papel do adulto nos momentos de brincar livre é observar, registrar, falar apenas o necessário, deixar o bebê resolver suas pequenas disputas e frustrações, e intervir o mínimo possível. A postura do adulto afeta o brincar, pode lhe causar liberdade e segurança ou passividade e dependência. Dentro dessa proposta mais observadora e silenciosa, me comunicava por meio de expressões sem elogiar, fazer perguntas, sugerir ou direcionar. Se fosse convidada, interagia sem interferir no brincar.


Um outro lugar para brincar era a sala central, um espaço que se dividia em dois ambientes com crianças de 18 a 24 meses e os demais educadores. Novos desafios e provocações se colocavam nessas transições: escadas, mudança de nível, portas de vidro, acesso ao quintal com plantas, areia e um ateliê; além de um corredor íngreme com uma pia e um mural de azulejo. Os bebês exploravam esses espaços, interagiam com outras crianças e adultos, almoçavam e depois subiam novamente para sala referência finalizando o período da manhã.

Essa sala central era planejada pelos educadores que atuavam com as crianças "maiores", porém todas as idades eram contempladas nessa organização. Como o espaço externo era utilizado por todos (bebês e crianças de 10 a 30 meses), havia um rodízio de educador responsável por esse planejamento. Tanto os objetos e os brinquedos da areia, quanto as vivências com múltiplas linguagens consideravam esse grupo multietário e suas necessidades, por vezes um desafio, mas foi possível realizar devido algumas adaptações e muita observação.


Segundo a BNCC o brincar deve acontecer no cotidiano, de diferentes formas, em diferentes espaços, com diferentes materiais, e inclusive, com o próprio corpo. Em parceria com crianças e adultos, individualmente e coletivamente.


Estar na sala de referência tinha um privilégio, além de ser um ambiente mais calmo, conseguia sentar, observar, anotar e fotografar as aprendizagens do bebês sem outras preocupações, pois todos estavam no mesmo ambiente. Na sala central e na área externa nem tanto, as crianças permaneciam em espaços diferentes ao mesmo tempo e me dividia para atender as transições e os cuidados pessoais.


É importante considerar que o brincar ocupa a maior parte do tempo na vida de um bebê e ele precisa estar com suas necessidades satisfeitas para pode brincar com prazer e bem-estar. Desde muito pequeno já pode experimentar "doses" de autonomia ao escolher um objeto e decidir por quanto tempo vai explorar ou abandonar a brincadeira e buscar outra coisa para se dedicar.

Sobre o movimento livre, assunto do qual já escrevi no blog, posso dizer que os bebês tinham liberdade para se movimentar, em nenhum momento eram estimulados a ficar em uma postura que não conseguiam por conta própria e o espaço garantia diversas experiências com o movimento corporal. Enquanto a sala referência, que era totalmente plana, possuía alguns móveis piklerianos, os outros espaços ofereciam a própria estrutura para complementar e ampliar os desafios necessários para o desenvolvimento motor dos pequenos.


Os campos de experiência contribuíram com a intencionalidade da prática pedagógica, principalmente, com relação ao o que oferecer aos bebês e crianças pequenas, por ser um espaço de educação não formal e a BNCC era recente, estávamos aprendendo também. Por fim, as experiências são múltiplas, poderia continuar falando do brincar por muitos olhares, mas vou deixar que os registros fotográficos complementem a reflexão.

É pelo brincar que os bebês passam por experiências e vivem explorações de todo tipo, que se desenvolvem, aprendem e interagem! Bebê feliz e saudável é bebê que brinca com liberdade!


*Fotos por Marcela Chanan @culturainfantil

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