• Marcela Chanan

Crianças e livros: um encontro de potências.

Atualizado: Set 25

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Entre 2018 e 2019 tive novas experiências de trabalho com grupos de bebês e crianças pequenas (1 a 3 anos ), o que despertou meu olhar sobre a relação das crianças com os livros no ambiente educativo, sobre o que acontecia nesse encontro.


Ler para bebês é algo encantador! Um som, um balbucio, um olhar, um sorriso, um movimento pode revelar o quanto eles já conhecem aquela história e as emoções que os envolvem. Se atentam as ilustrações, a voz, ritmos e melodias - as palavras que rimam e repetições. Se mostram animados, alegres e desejantes de manusear o livro.


Leia: A pequena história dos bebês e dos livros https://issuu.com/revistaemilia/docs/livro_dos_beb__s


Depois de algum tempo com experiências de leitura mediada, observei que os bebês buscavam os livros com frequência na biblioteca da sala: alguns olhavam para todos os títulos antes de escolher um, outros já sabiam qual pegar. Exploravam em pé, deitados, sentados, seguravam de diferentes formas, balbuciavam e apontavam para imagens, chegavam tão perto que pareciam querer entrar no livro. Também ouviam histórias contadas pelos maiores (3 anos), escolhiam alguma para eu contar e era só começar para que todos chegassem perto para ouvir.

Essa biblioteca se renovava de tempos em tempos. Tínhamos um bom acervo, porém disponibilizávamos poucos por vez para conseguirmos mediar esse uso.


Havia um grande interesse por leitura e manuseio dos livros. As crianças me procuravam diversas vezes ao dia para ler e também se colocavam como leitoras. Assim como para os bebês, ler para as crianças pequenas me ajudou a formar um vínculo emocional seguro e de confiança. Talvez tenham percebido meu encanto, disponibilidade e até diversão com a leitura, e se aproximavam cada vez mais.


Com isso, pude refletir sobre a conexão com minha criança interior, a ludicidade presente e meu corpo em cena durante a mediação de leitura, em como abro um espaço dentro de mim para me doar, para me emprestar e partilhar dessa narrativa. É um momento de interação diferente do corriqueiro, elas me olhavam com curiosidade por conta da voz e/ou das expressões corporais: era eu, o livro ou o personagem que falava? Me olhavam com outros olhos! E não é teatro ou dramatização, é leitura sentada no chão mesmo.

A leitura é acolhedora, é um lugar de encontro para imaginar, viver, sentir, ampliar as visões de mundo e criar outros. Muitas vezes é na escola que bebês e crianças pequenas têm um maior contato com livros que apresentam elementos literários. É uma forma de conhecer o mundo, as culturas, as artes.


Os livros não precisam ficar apenas na biblioteca, podem circular pela escola, inclusive pelas casas. Ler na sala referência, ler no parque, ler na varanda; ler em diferentes espaços, tempos e agrupamentos.

É possível presenciar o encantamento e os saberes construídos por essas práticas, ao observar pequenos gestos e expressões que nos contam sobre como elas estão interagindo com o livro no cotidiano durante uma leitura com o educador ou por iniciativa própria.


Ao observar o que nascia desse encontro entre crianças e livros, descobri o quão potente é a literatura na vida delas: experimentam emoções, se identificam ou se relacionam com personagens, se expressam com o corpo todo, seguram o livro de diversas formas, se apoiam nas imagens para "ler" uma narrativa memorizada, tentam manter a "leitura" sincronizada com o passar das páginas, passam os dedos nas letras enquanto "leem", diferenciam as letras das ilustrações, selecionam os livros preferidos, desenvolvem repertório de narrativas para ler e brincar, avisam e até se incomodam e solicitam arrumar o livro que está rasgado, demonstram que sabe alguns aspectos da linguagem literária, de como se conta uma história ao usar certas palavras; contam histórias inventadas, contam histórias de acordo com as ilustrações e muito mais.


Quanta riqueza, um bebê ou uma criança pequena pode desfrutar por meio da leitura e do manuseio de livros!

É fundamental ter critérios para escolher livros de qualidade, não é porque são bebês que merecem apenas livros de pano, banho, texturas e som. Os bebês e crianças pequenas precisam de contato com bons livros, durante a escolha é preciso considerar e diversificar: os autores, as ilustrações, a qualidade do material gráfico, os gêneros literários, os assuntos, as culturas e as materialidades (cores, formas, texturas). Além de não ficar preso ao "adequado" para faixas etárias (bebês gostam de outros livros também!) e não decidir o que elas gostam ou não gostam (isso tem a ver com suas crenças). Ofereça livros informativos, enciclopédias, mapas, assim como livros com referências artísticas e culturais.


Vale lembrar que quando se fala de qualidade na literatura infantil oferecida na escola, não há espaço para estereótipos e personagens da mídia consumista e não é para ser usado em função de aprender ou fazer algo, a função da literatura já se basta.


Há muitas possibilidades de leitura e interação com os livros. Inclusive a leitura não precisa ser sempre em roda para todos ouvirem: faça o convite para se aproximarem, durante a leitura alguns permanecem até o fim, outros seguem brincando e participando não tão de perto, vale considerar essa flexibilidade. Pode ser na sala referência, nos espaços externos e outros espaços da escola.


Todo livro tem a sua intencionalidade e é preciso respeitá-la, ler o texto na íntegra e mostrar as ilustrações. As crianças são capazes de entender o contexto do jeito delas. E é comum recontarem as histórias depois que lemos, disponibilize o livro e acompanhe de perto. Já os bebês vão querem interagir com o livro, tocar e pegar, durante a própria narrativa.


Manipular os livros morder, virar de cabeça para baixo, folhear, sentir os livro, ouvir de diferentes pessoas, repetidas vezes, faz parte das experiências leitoras que a criança precisa viver para ter uma boa relação com a literatura. Bebês e crianças pequenas conhecem e aprendem com o corpo todo.

Essa ideia de que vão estragar tudo não é verdade, depende da relação que se estabelece com os livros: cuidado e zelo se ensina. Não dá para deixar as crianças e os livros abandonados a própria sorte nesse encontro.


A partir do contato com a leitura a criança aprende a manipular os livros, que lemos da esquerda para direita, que podemos retomar a leitura; a valorizar o prazer de estar junto, viver sentimentos e sensações, perceber que o livro tem marcas na narrativa e nas ilustrações. Altere a narrativa de uma história conhecida por elas e logo alguma criança dirá “Não é assim”!.


A criança pequena conhece o mundo a partir das suas experiências, principalmente pelos sentidos. Suas primeiras vivências acontecem desde a gestação, quando já são capazes de ouvir a voz da mãe, seu desenvolvimento saudável é marcado pela relação adulto-bebê, pelos cuidados e possibilidades de explorar o mundo ao seu redor.


Mesmo antes de saber ler, a criança lê o mundo e interpreta da forma dela e a literatura é uma produção simbólica que enriquece essa experiência. Ler é alimentar esse território subjetivo da imaginação para possibilitar que as crianças criem narrativas singulares e identitárias. Isso tanto na relação com a literatura, quanto na relação com o brincar. As histórias alimentam o mundo interno das crianças, a imaginação, as narrativas e o brincar.


Ler é um encontro com o mundo, com o seu mundo e com o mundo dos outros!

*Todos os direitos autorais das imagens e texto reservados para Marcela Chanan. É proibida sua cópia ou divulgação sem autorização prévia.


Dica: Ciclo de conversas sobre leitura com bebês - A Taba

https://blog.ataba.com.br/ciclo-de-conversas-leitura-para-bebes/

Confira os vídeos e você encontrará diversas referências para estudo.

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