• Marcela Chanan

Movimento Livre: os desafios que habitam o ambiente para bebês e crianças pequenas.

Atualizado: Mar 31

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"Liberdad motriz significa permitirle al niño, cualquiera sea su edad, que descubra, pruebe, experimente, ejercite y luego que mantenga o abandone, a lo largo del tiempo todas las formas de movimiento que se le ocurran durante su actividad autónoma (..)" (FEDER, 2014)

Esse é um breve relato de experiência, a partir da convivência cotidiana e da observação do movimento livre de bebês e crianças pequenas (1 a 4 anos) em um espaço de educação não formal.


Os estudos da abordagem Pikler guiam o meu olhar para os bebês e crianças pequenas, conheci a abordagem em um seminário internacional aqui no Brasil (e continuo participando de outros), participei de uma formação em Paris (Association Pikler-Lóczy France) e um aprofundamento na Argentina (Red Pikler Nuestra America). Mantenho os estudos com diversos livros que adquiri em espanhol, troca de saberes, práticas e estudos na área da psicanálise. Há 6 anos reflito sobre esses saberes e compartilho em formações de professores, apresentei esse percurso em diálogo com a abordagem no XI Encontro Nacional e IV Encontro Internacional sobre o Bebê com o painel “Um olhar sensível na prática com a primeiríssima infância”.

Orientada em relação ao papel do adulto, o desenvolvimento motor global e a articulação desse processo com as funções psíquicas - a formação do esquema corporal, a constituição das funções de orientação, as primeiras noções abstratas e as primeiras estruturadas do pensamento (PIKLER, 2014), me vi diante de uma pesquisa diária sobre as explorações corporais autonômas e a importância de atender à essas necessidades.


O movimento livre é o desenvolvimento motor que acontece de forma espontânea, sem a intervenção direta do adulto, isso quer dizer, sem ensinar, estimular ou colocar a criança em uma posição que ela não assume por conta própria. A intervenção do adulto é indireta, ou seja, ele organiza o ambiente com materiais apropriados para o bebê que por iniciativa própria, se coloca nas posturas de rolar, rastejar, engatinhar, andar, além de outros deslocamentos e posições intermediárias. A roupa deve ser confortável e flexível.

A Dra Emmi Pikler criou móveis específicos para garantir as necessidades de movimento dos pequenos e uma escala de desenvolvimento motor para acompanhamento e observação, porém não há idade em que as posturas precisam ser conquistadas, a qualidade do movimento é o mais importante. Cada criança tem seu ritmo de desenvolvimento, então quando sua maturação orgânica e nervosa estiver melhor estruturada, o corpo responderá com uma coordenação mais harmônica. Sempre considerando as condições do ambiente.


Se movimentar é complexo, exige concentração, atenção as sensações, lidar com as emoções, envolve percepção corporal e do entorno, além de um grande gasto enérgico.

É muito gratificante observar a alegria e a satisfação de um bebê ou uma criança pequena ao conseguir realizar por conta própria um movimento (avaliar riscos, vencer seus medos e fazer descobertas). E podemos valorizar essas ações com naturalidade, sem tantos elogios para não inverter o prazer da conquista autonôma, por fazer as coisas para agradar os adultos, buscando aprovação se essa for a única forma de interesse do adulto por seus feitos.


Em alguns momentos de concentração e atenção é possível observar os dedinhos dos pés agarrados como ventosas, dedão do pé para cima e expressões com a boca, a língua e outras faciais (movimento, cognição, emoção).


Desenvolvimento motor com liberdade (e tudo que envolve essa liberdade) gera consciência corporal, autoconfiança, autoestima, autoregulação na construção da personalidade da criança. Os movimentos se tornam equilibrados, flexíveis e melhor coordenados.


A palavra LIVRE foi mal interpretada muitas vezes na educação, livre NÃO É abandonado: o adulto está presente, troca olhares, fala com a criança, se expressa e ajuda se for realmente necessário. Para esse desenvolvimento acontecer a relação adulto-bebê tem papel primordial, é a partir do estabelecimento de um vínculo seguro e confiável que a criança se coloca a explorar.


Vale lembrar que nessa abordagem não se usa nenhum tipo de acessório para contenção dos bebês, nada de almofadas nas costas para sentar, de andador ou bebê conforto. Lugar de bebê é no chão, de preferência o espaço interno de madeira, o externo natureza!


"Uma criança que consegue algo por sua própria iniciativa e por seus próprios meios adquire uma classe de conhecimentos superior àquela que recebe a solução pronta." (PIKLER apud FALK, 2016, p. 27)

O adulto precisa se conter (gestos e fala), investir e estar aberto a escuta e a observação da criança, conhecer como se dá o desenvolvimento motor, confiar na capacidade dos bebês e crianças pequenas, aprender junto, estudar, respeitar os ritmos e mediar os desafios que a criança se coloca com muita sensibilidade.


Pense bem...se o papel do adulto é acompanhar o desenvolvimento de cada bebê ou criança, preparar o ambiente e os materiais, isso já quer dizer muito.


"Para a criança, corpo, gestos e movimentos são uma forma vital de conhecimento do mundo e de si mesma, e a atuação sensível do professor em relação a esses elementos é condição básica para garantir os direitos e os objetivos de aprendizagem na unidade de Educação Infantil." (MEC, OLIVEIRA, 2018)

As crianças pequenas que já conquistaram a verticalidade e andam com segurança, nos mostram outras necessidades de movimento: pular, escalar, correr, pendurar, balançar, equilibrar, etc. Em um espaço onde o terreno é ingrime, há escadas, terra, pedras, árvores, balanços e muitas coisas para escalar, subir, pendurar; a diversidade de possibilidades e desafios corporais foi garantida tanto pela estrutura (que deve ser positiva no sentido de não estar cheio de proibições) quanto pela relação com os adultos e a interação entre as crianças de diferentes idades.


Com tantas opções para se movimentar as crianças também constroem conhecimentos a cerca de como determinados materiais se comportam e aplicam esses saberes em novas explorações. E isso também acontece em relação ao seu próprio corpo, o movimento torna-se cada vez mais complexo.

O movimento livre é um desafio para nós educadores, por dois motivos: garantir boas condições do entorno (sem super proteção) e a postura do adulto: como apoiar as crianças em suas explorações corporais?


Durante essa experiência lidei com diversos sentimentos e ao mesmo tempo com o desejo de ver e presenciar a potência infantil. Uma das minhas estratégias foi trocar a intervenção direta pelo uso da mediação verbal e presença física (isso nas condições do espaço em que atuei, não é uma receita):


  • a criança sobe onde consegue por conta própria;

  • não coloco nenhuma criança em um lugar mais alto do que ela consiga subir ou descer sozinha, observo e permaneço próxima caso seja necessário;

  • não seguro o corpo para que suba em determinado lugar ou pego no colo, quem tenta e não consegue ofereço outros lugares para subir;

  • algumas vezes tentam até desistirem, outras choram um tanto frustradas, é um processo importante de conscientização corporal, dos seus limites e potências.


Deixei de pensar para os bebês só o que é de bebês, eles me mostraram que vão muito além!

Fortaleci minha confiança na capacidade dos bebês e crianças pequenas, e com observação e intervenções pontuais me deslumbrei com a possibilidade de viverem esses desafios. Transformei meu olhar e minhas ações!


Lidar com o perigo todos os dias (e ainda fotografar ou filmar) foi uma aprendizagem libertadora e emocionalmente intensa, não é fácil, mas para quem sempre desejou essa liberdade e lutou muito por isso na escola, me encontrei! Foi a materialização do que acreditava e na verdade do que vivi na infância, do que foi minha experiência, então foi um encontro.


Compartilho alguns registros no instagram do blog @culturainfantil e também nas formações de educadores, contando sobre a trasformação do meu olhar, promovendo a visibilidade da potência infantil, da capacidade que bebês e crianças carregam dentro de si quando tem um ambiente e um adulto preparado.


"Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". Paulo Freire

Fotos: Marcela Chanan



Bibliografia


FALK, Judith. Educar os três primeiros anos: a experiência Pikler-Lóczy. São Paulo: Junqueira &Marin, 2016.


FEDER, Szanto Agnès. Una mirada adulta sobre ela niño en acción - El sentido del movimiento en la protoinfancia. Buenos Aires: Ediciones Cinco, 2014.


MEC; OLIVEIRA, Zilma de Moraes Ramos de. Campos de experiências: efetivando direitos e aprendizagens na educação infantil. São Paulo: Fundação Santillana, 2018.


PIKLER, Emmi. Moverse en Liberdad - Desarrollo de la motricidad global. Madrid: Narcea, 2014.

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