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Datas comemorativas na educação infantil: faz sentido?

Foto do escritor: Marcela Chanan
Marcela Chanan
há 5 dias
8 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Por Marcela Chanan


Hoje é dia de comemorar...


...a páscoa, as crianças, as mulheres, a água, a árvore, o meio ambiente, o trabalho, o abraço, o amigo, o saci, o professor, o livro, o natal, a abolição, a independência, o museu, os estudantes, as mães, os pais, os povos indígenas, a consciência negra, o folclore e as mais diversas datas...a lista é enorme, tem até o Halloween de outra cultura.


Trabalhar a partir de datas comemorativas e das estações do ano é uma prática da pedagogia tradicional onde se considera um calendário como orientador do currículo na educação infantil, desconsiderando as concepções de documentos mandatórios do MEC como as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil e a BNCC. Em determinado contexto histórico foi aceitável, atualmente já não é mais. Além de engessar, empobrecer, estereotipar e mecanizar o trabalho pedagógico, esse fazer em pleno século XXI, revela a falta de atualização didática e metodológica da instituição.


Compreendo que há espaços educativos que estão em transição, desejosos por mudanças. Estar em movimento já é um grande passo, espero que esse texto ajude a provocar reflexão. Nesse processo é necessário cuidar para que a prática pedagógica não se torne uma salada de fruta de concepções, sem a compreensão dos fundamentos e das escolhas; a equipe pedagógica precisa se sentir segura e acreditar no mesmo projeto. Esse movimento de transformação deve ser conversado com a comunidade escolar, ter reuniões formativas, posicionamento claro e outras ações.


Acabamos de passar pelo dia das crianças... Se o discurso para comemorar (seja da escola ou da equipe pedagógica) foi fazer um dia ou uma semana "diferente" e ver as crianças felizes, há algo de errado nessa visão, pois o que é "especial" ou traz alegria deve estar presente no cotidiano escolar. Afinal, o cotidiano é feito de que então? Pressa? Obrigações? Produtividade? Fragmentação? Lista de objetivos? Decisões e escolhas apenas dos adultos?


A criança é um sujeito de direitos: brincar com água, explorar a natureza, pesquisar, escolher, pintar com tinta, fazer culinária, se expressar pelas múltiplas linguagens, conviver com as demais turmas, ter rotinas flexíveis, conhecer novas brincadeiras, transitar com liberdade, participar do planejamento e de decisões que lhes dizem respeito, ter acesso a diversos materiais e propostas é DIREITO. Tem um documento que trata dos Direitos Fundamentais aqui focado no 0 a 3, mas que pode contribuir com toda a Educação Infantil. Agora, pula-pula e piscina de bolinha não faz parte de um ambiente educativo e sim de buffet, festas de rua, parques etc, enfim outros espaços sociais.



Se você, como professora ou gestora, quer proporcionar algo incrível às suas crianças, realize um trabalho com intencionalidade pedagógica, onde você cumpra sua função de garantir qualidade; ofereça uma boa relação/um bom clima entre as pessoas no ambiente escolar, articule-se com as possiblidades do seu território, da sua realidade. Portanto...


Como ressignificar as datas comemorativas?

O que celebrar? Qual é o sentido?


Precisamos romper com essa prática de comemorar datas baseadas em um calendário consumista que contempla apenas uma religião, uma estrutura familiar e uma visão de mundo. A tal história única de Chimamanda Ngozi Adichie. O calendário também é um espaço de luta, de disputa, de colonização, de manutenção do valor de uma tradição, de uma história e uma cultura dominante. A mesma que mantém um projeto de educação que dispensa a construção de conhecimento e o pensamento crítico. Cadê a inclusão, a diversidade, a equidade? Os princípios éticos, estéticos e políticos da DCNS?


  • PRINCÍPIOS ÉTICOS de valorização da autonomia, da responsabilidade, da solidariedade e do respeito ao bem comum, ao meio ambiente e às diferentes culturas, identidades e singularidades.


  • PRINCÍPIOS POLÍTICOS que asseguram à criança, desde o nascimento, os direitos de cidadania, o exercício da crítica e o respeito à ordem democrática.


  • PRINCÍPIOS ESTÉTICOS de valorização da sensibilidade, da criatividade e da ludicidade da criança, assim como da diversidade de manifestações artísticas e culturais.


Temas como meio ambiente, natureza, sustentabilidade, família, povos indígenas, povos africanos, povos migrantes, diversidade, cultura afro-brasileira, cultura popular brasileira, etc; devem ser trabalhados o ano todo como parte do currículo, de forma contínua e não pontual.


As celebrações podem ocorrer durante todo ano letivo como festa literária, mostra de trabalhos, exposição ou lançamento da finalização de algum projeto, festejos da cultura, cortejos, festa da família etc. Datas como páscoa e natal são ligadas a religião e a escola é laica (CF 1988), cabe a família comemorar como uma escolha do ambiente privado, a não ser que a escola seja oficialmente religiosa. A festa junina tem um aspecto religioso, mas foi decretada como patrimônio cultural, então precisa ser trabalhada com o foco no aspecto cultural, sem descaracterizar a festa com o excesso de consumo (paga ingresso, paga alimentação, paga brincadeira) e a reprodução de estereótipos (fantasia de caipira) sem contextualização de suas origens.


Imagem: Facebook institucional do CEI
Imagem: Facebook institucional do CEI

O dia dos pais e das mães também é discutível e muitas escolas trocaram pelo dia da família, como forma de incluir as diversas estruturas familiares, o que faz sentido e respeita tanto as crianças e suas histórias, quanto as suas famílias, são dias dedicados a quem cuida delas no cotidiano. Porém, é preciso sempre haver abertura para conversas com a comunidade escolar sobre intolerância, preconceito, morte, abandono, violência etc. A escuta e o respeito são essenciais! Nem sempre a mãe ou o pai cumpre sua função materna e paterna como as datas romantizam, há crianças adotadas, com pais falecidos, com outros responsáveis pelos cuidados e educação.


Nosso papel como profissionais da educação é garantir o desenvolvimento integral dos bebês e das crianças. "Ah, mas as famílias pedem!", "Ah, mas as crianças gostam!", "Ah, mas têm crianças que nunca tiveram essa oportunidade!", bom se você é flexível com alguma dessas falas, ainda não entendeu o seu papel como profissional da educação infantil e se você é gestor também não entendeu ou parou no tempo em relação ao papel dos espaços de educação infantil, o nome já diz educação não é assistencialismo. E não adianta não comemorar o dia, mas criar a semana, o mês das crianças ou apenas no "agosto indígena" tocar no assunto e trazer indígenas para dentro da escola. Raso, bem raso, a concepção não mudou, só a aparência.


A escola parece renovada, mas a prática continua esvaziada e sem sentido, pois existem documentações pedagógicas fakes, que revelam um recorte preparado e não um processo vivido. Eu mesma já fiz parte (contra minha vontade) das tais semanas temáticas (indígena, afro-brasileira e migrante) a cada bimestre. Trabalha-se temas fundamentais de forma superficial durante uma semana, faz uma exposição cheia de fotos, com livros, produções e citações, depois junta tudo e apresenta como um trabalho contínuo e aprofundado. Mentira! Cuidado com a hipocrisia! Pode parecer bonito de ver, mas o que as crianças aprenderam? O que os docentes apresentaram de significativo? Como trabalhar a cultura indígena se os docentes não sabem nem o que é marco temporal? Só sobra o estereótipo!


Até os aniversários precisam ser revistos, a escola não é um buffet, mesmo que a criança leve só o bolo, há uma certa competição, há famílias que não comemoram ou não enviam o bolo e há crianças que se chateiam, frustram, se sentem excluídas. Converse com as famílias e conheça a cultura familiar de cada criança. Lidar com festa de aniversário não é papel da escola.


O que realmente importa é como a criança é tratada no cotidiano, ela é vista? escutada? considerada? validada? Se quiser comemorar os aniversários, pode ser preparando uma proposta de culinária na própria escola, uma brincadeira de bolo de areia, a leitura de uma história de aniversário, a escrita coletiva de um cartão do grupo para a criança, etc. O importante é a criança se sentir feliz, respeitada e ter um vínculo afetivo com as educadoras e esse vinculo se dá pela relação não pela matéria.


Eu nunca pensei que precisaria escrever sobre esse assunto no blog em pleno 2026, mas todo ano profissionais da educação infantil me procuram para falar sobre este assunto. Assim como outros, não vou me aprofundar, mas nem formatura na educação infantil não faz mais sentido, lembrancinhas, apresentações ensaiadas em datas específicas sem estarem ligadas a estudo ou pesquisa nenhuma, etc.


A aprendizagem não se dá em uma data ou semana, é o ano inteiro! É na complexidade, na continuidade, no contato cotidiano, na intimidade com o assunto, na ação, na expressão por múltiplas linguagens etc. A aprendizagem significativa precisa de sentido, tempo, escuta e protagonismo.


Lembrando que o currículo é cotidiano. Como seu planejamento é fundamentado? Data comemorativa é para quem procura atividade pronta e não sabe olhar para o cotidiano e escutar as crianças, validá-las como potentes, criativas e protagonistas dos seus processos de aprendizagem. Já escrevi no blog sobre planejamento, escuta, projetos, contextos dentre outros textos.


Ressignificar as datas é construir um trabalho durante todo o ano para na data comemorativa fazer sentido celebrar. Então, pode trabalhar? Pode! Contanto que faça parte do currículo desde o início do ano e esteja presente no cotidiano, um trabalho contínuo, fundamentado e diverso que articula a data comemorativa no currículo sem precisar parar tudo que está fazendo para dar conta de algo que cai de paraquedas como conteúdo a ser trabalhado sem se conectar com nada. E se sempre se questionar, vamos comemorar os povos indígenas, o meio ambiente, comemorar o quê? O que temos a comemorar? Como a sociedade trata os povos indígenas e o meio ambiente? Precisa de um olhar critico e consciente, sem romantizar.


A comemoração precisa ser celebrada exaltando as contribuições desses povos e da mãe terra para nossas vidas, valorizando-as, quebrando preconceitos em uma perspectiva antirracista e de preservação da natureza, mantendo as crianças em relação com a natureza no cotidiano, não adianta comemorar a data e não brincar com terra, água, lama, plantas etc...não desenvolver o cuidado com os animais etc.


Imagens: arquivo pessoal
Imagens: arquivo pessoal

Cultura não é religião por mais que ela esteja presente como parte do conhecimento estudado, cultura é diferente de prática religiosa (que é uma escolha privada do âmbito familiar); se você se depara com essa situação e confunde cultura com religião, vale a pena procurar uma formação ou estudioso para ajudar desmistificar. Ainda existe muito racismo religioso disfarçado quando se trata da cultura afro-brasileira. O próprio folclore já tem sido discutido entre estudiosos indígenas, em como essa palavra tem um significado pejorativo e reducionista da cultura indígena.


Esteja atendo quando a cultura e o consumismo se esbarram, vinculando datas a necessidade de consumir, pois perde-se o sentido. Na história de algumas datas comemorativas sempre tem um publicitário, uma campanha ou marketing envolvido em suas origens.


Ainda me pergunto com o cenário do qual vivemos: Será que todas as datas têm o que comemorar? O que se comemora se o ano inteiro vemos tudo ao contrário do que deveria ser valorizado e respeitado? Precisa entender muito bem dos princípios éticos, estéticos e políticos das DCNS.


ESCOLA É LUGAR DE CONVIVÊNCIA PLURAL.


No meu ponto de vista as datas comemorativas são datas de conscientização da cultura, da história, da ciência que precisam ser recontadas. Não há o que comemorar e sim o que problematizar. Afinal, como a sociedade trata as mulheres, as crianças, os povos afro-brasileiros, indígenas e migrantes; as pessoas LGBTQIA+, as pessoas com deficiência, os professores, a natureza, os animais, a arte, as pesquisas, as religiões de matriz afro, etc. ? E ainda tem as datas históricas que revelam um olhar hegemônico...tem tanta coisa pra analisar. O assunto não se esgota aqui.


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