• Marcela Chanan

Brincar, criar e construir: investigações cotidianas.

Por Marcela Chanan


Em 202 1com o retorno da jornada presencial na Educação Infantil (escola pública - SP), entre muitos vai e volta por conta dos afastamentos devido à pandemia, vivi um percurso de investigação com crianças de 3 anos durante um semestre.

A motivação por criar contextos de construção surgiu da observação do interesse das crianças pelas opções de brinquedos para montar. As ações, a criatividade e a imaginação das brincadeiras me chamaram a atenção, mas os materiais me desagradavam por serem limitantes (todos de plástico, muito colorido, de pouca qualidade, pois não encaixavam bem, eram muito leves e não se sustentavam, estavam com peças quebradas, perdidas e outras misturadas). Só tinha uma caixa de blocos de madeira reaproveitados e cilindros de papelão, que eram pouco usados, acredito que as crianças mantinham o foco nas opções de monta-monta e tantos outros brinquedos industrializados (estereotipados, com a brincadeira dada), provavelmente por desconhecerem a potência desses materiais.


Sendo assim, resolvi enriquecer essa experiência de montar e colocar a intencionalidade pedagógica em prática já que a construção estava presente e pulsante. Reorganizei os materiais da sala referência selecionando alguns para descarte e outros que aos poucos iria substituir por materiais de largo alcance (assim as crianças poderiam atribuir significados diversos, inventar e reinventar), deixei apenas alguns personagens, animais, dinossauros, carrinhos, kit de escritório, panelinhas, bebês, pedaços de tecidos, massinha, materiais para desenho e livros de literatura infantil. Solicitei a compra de materiais e enquanto aguardava, levei (progressivamente) alguns de casa: cones de papelão, copos de iogurte, blocos de madeira coloridos, caixa de ovos e cd's. As bolachas de madeira foram da poda realizada na escola, outros elementos da natureza foram coletados no parque e as latas de leite reaproveitadas da cozinha da própria unidade escolar. Essa reorganização implicou também em rever a quantidade disponibilizada, a diversidade de materialidades, o alcance nas prateleiras e visibilidade que as caixas proporcionavam.

Cada um tinha seu espaço delimitado (dentro do possível) e o combinado era que ao terminarem de brincar, recolhessem os materiais, colocassem tudo nas devidas caixas e levassem à prateleira. Sempre colaborei com esse momento incentivando as crianças com o meu exemplo, ou seja, ajudando-as; não podemos responsabilizá-las totalmente por essa ação, precisa fazer sentido para elas. Com isso, a estratégia deu certo e logo não precisavam de minha ajuda, mas me solicitavam quando necessário, se a construção era grande e havia muitos elementos.


Faz parte dessa estratégia organizativa manter a quantidade de materiais equilibrada nas prateleiras. Se a sala referência é um contexto de aprendizagem, ela se transforma de acordo com a escuta das crianças, não dá para manter a organização fixa o ano inteiro, por isso é interessante ter opções de materiais para trocar e substituir, sem colocar tudo de uma vez. Para poder tirar o que não brincam mais e colocar outra materialidade de acordo com as investigações observadas.

Como o grupo sabia que podia brincar livremente com as materialidades, nunca se incomodaram de desmontar e guardar, o importante mesmo era viver aquela experiência, sabiam que podiam sempre retomá-la, pois eram investigações contínuas, compreendendo as construções como efêmeras. Também me tinham como parceira, sempre interessada e presente - essa relação adulto-criança foi decisiva para as aprendizagens.


Outro fator importante foi o respeito ao ritmo e os tempos das crianças, não seguia a linha do tempo (grade de horários) a risca, apenas os marcos de alimentação e sono. Portanto, o contexto estava na sala referência para escolherem quando quisessem. Quando usávamos o solário era uma opção que decidíamos juntos e novamente escolhiam os materiais e levavam para fora. Normalmente as construções eram exploradas no início do dia, depois íamos para o parque, alguns dias tinham contextos com outras linguagens, história, apreciação dos livros de literatura infantil e descanso.


A partir dessa primeira organização meu papel foi:

  • estar junto, apresentar algumas possibilidades como sugestão para iniciar o movimento das crianças na percepção do potencial dos materiais (aos 3 anos elas já estão bem acostumadas com os brinquedos consumistas);

  • observar e registrar para descobrir o que faziam, como construíam, juntavam ou não materiais diferentes, quais eram as preferências, persistiam ou desistiam de seus projetos construtivos, faziam comparações, queriam interagir com outros colegas ou brincavam individualmente... e assim nutrir os percursos;

  • proporcionar liberdade para brincar, manipular e descobrir por si mesmas, dessa forma a criança cria um repertório de ações e saberes sobre os objetos e passa a usá-lo com intenção, por exemplo, buscando um objeto quando precisa fazer determinada construção.

Dentre outras ações que estão ao longo do texto.


Quando as crianças entraram em contato com esse material de fim aberto, foi possível observar que tiveram poucas experiências anteriores. Iniciaram a exploração e experimentação dos jogos de construção para conhecer os materiais com ações como empilhar, enfileirar e selecionar em um processo de investigação (criação de hipóteses, testes) das suas características e possibilidades (forma, tamanho, cor, peso, posição, volume, encaixe, equilíbrio, composição etc). Foram ações prazerosas que as repetiram com frequência, inclusive haviam combinados para a desconstrução (derrubar) para não chatear os colegas. Também observei a presença do jogo simbólico, onde começaram a nomear as construções e narrar o que estavam fazendo, inclusive me convidando para interagir.


A base de apoio (chão, mesa, tapete, caixa etc) onde é realizada a construção também é objeto de pesquisa das crianças: se a superfície é lisa, áspera, plana, irregular etc. e como os materiais se comportam em cada uma delas, assim como dependendo do espaço físico proposto as construções eram criadas com proporções diversas. Elas mesmas escolhiam a base dentre as opções do ambiente, na maior parte das vezes individualmente (por conta da pandemia), mas em relação e outras em uma interação cuidadosa com outras crianças do agrupamento, como possibilidade de aprender juntos.

Com tempo para experimentar, investigar e imaginar as brincadeiras, os contextos de construção promoveram experiências com sentido e significado. Pois, as próprias crianças deram forma aos seus pensamentos e desejos com autonomia, autoria e protagonismo; colocando em ação todos os seus saberes e articulando várias linguagens. Essas são experiências vividas com esses materiais, mas o grupo também viveu experiências de construção conectadas com outras linguagens onde puderam construir, criar e brincar com argila, desenho, papel e elementos da natureza.


Durante o semestre acompanhei os processos de aprendizagem e desenvolvimento de cada criança, seguiram caminhos individuais, entre momentos de interação e criação coletiva. A substituição de materiais foi progressiva e acompanhou essas pesquisas, acredito que a observação e o registro - aliado ao estudo, pesquisa e reflexão sobre como potencializar o que testemunhava é um pouco do que partilho aqui. Se não tivermos perguntas para nos mover, estacionamos. Foi assim que consegui nutrir os percursos de cada criança e manter o contexto contínuo enquanto elas se mostravam interessadas, só terminou porque o semestre chegou ao fim e houve uma reorganização dos grupos. Dentre as brincadeiras tiveram várias pistas de carro, blocos de madeira e pedras que se transformaram em comida, shopping, castelo, narrativas ligadas a personagens de desenho, dentre outras, até dinossauro de monta-monta gigante elas fizeram para correr atrás de mim!

Esse brincar de construir está presente nas crianças desde bebês quando começam a empilhar, tem toda uma construção interna de si mesmo (das emoções) envolvida, nutrir esse brincar é importante para o bem-estar, para o desenvolvimento integral das crianças e entrelaça diversos campos de experiências.


Venho há anos acompanhando as ações de construção de bebês e crianças em diferentes espaços educativos nos quais trabalhei, observando o desenvolvimento desse brincar da educação infantil ao ensino fundamental I, como tornam-se cada vez mais elaboradas. Realmente é encantador tamanha potência infantil em todas as idades!


As autoras Alejandra Dubovik e Alejandra Cippitelli no livro Construção e Construtividade , nos ensina sobre a linguagem da construtividade e esclarece "Construir é uma linguagem universal que pertence ao homem em suas esferas simbólica, social, cultural e técnica". Esse livro tem todo um trabalho primoroso onde você vai encontrar conhecimentos fundamentais.


Para finalizar, queria dizer não teria como descrever aqui todas as aprendizagens que as crianças viveram nessa experiência, nem compartilhar os registros fotográficos na sua integralidade, o que apresento são recortes.

*Todos os direitos autorais das imagens e texto reservados para Marcela Chanan. É proibida sua cópia sem autorização prévia. O compartilhamento da publicação na íntegra diretamente do blog (link e via redes sociais) é livre. Para impressão é obrigatório colocar a referência.


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